Muitos acreditam que é uma técnica recente, mas na verdade já existe há pelo menos 35 anos. Em meados da década de 80 foram publicadas as primeiras tentativas de punção venosa central guiada por USG, com e sem doppler. Nesse período também foram publicados estudos da variação anatômica da veia jugular em relação à carótida e estruturas vizinhas.

Em 1981, dois pesquisadores avaliaram a anatomia sonográfica das veias jugulares de 16 pacientes, medindo distância da pele ao vaso, a área da veia jugular ao nível da cricóide e as alterações anatômicas produzidas pela manobra de Trendelenburg e rotação da cabeça. Concluíram então que a veia tem grande capacidade de distensão com a manobra de Trendelenburg, e que uma rotação extrema da cabeça pode alterar a anatomia de forma que dificulta a punção.

Apesar de ser uma observação antiga, ainda é bastante comum a rotação extrema da cabeça, justificada pela maior exposição cervical nesta posição. Infelizmente em vez de ajudar, dificulta muito e expõe o paciente a maior risco de complicações. Um trabalho coreano de 2015 usou tomografia cervical para demonstrar a tendência de superposição ou cavalgamento da veia jugular interna sobre a carótida quando a cabeça é rotacionada. É possível perceber facilmente que dessa forma há uma maior chance de se puncionar a carótida inadvertidamente e pode ficar mais difícil de se puncionar a veia jugular, pois ela tende a sair da posição anatômica própria para punção por marcos anatômicos.

Um pequeno estudo publicado em 1990 no Chest, randomizado, com 29 pacientes consecutivos, adiantou o que os futuros trabalhos iriam encontrar. Dos 17 pacientes que ficaram no grupo de punção por marcos anatômicos, 6 (35%) falharam no procedimento. No grupo do USG, 12 pacientes, a taxa de sucesso foi de 100% e aquelas 6 falhas do grupo anterior foram puncionados com sucesso usando o USG. Todos os resultados com significância estatística.

O detalhe interessante desse estudo é que o procedimento guiado por USG foi realizado por dois médicos simultaneamente. Um deles realizava o USG e orientava o outro que realizava a punção propriamente dita!

Quase 30 anos depois, os novos estudos corroboram com esses trabalhos iniciais e acrescentam alguns detalhes, talvez com um menor impacto do ponto de vista de inovação científica porém com muito mais amplitude pela facilidade de disseminação de informação que existe hoje.

 

Ultrasonographic anatomy of the internal jugular vein relevant to percutaneous cannulation. 1981.

Ultrasound guidance improves the success rate of internal jugular vein cannulation. A prospective, randomized trial. Chest 1990.

US-guided puncture of the internal jugular vein: complications and anatomic considerations. 1998.

Anatomical relationship of the internal jugular vein and the common carotid artery in Korean : A computed tomographic evaluation. 2015.

Guidelines for Performing Ultrasound Guided Vascular Cannulation: Recommendations of the American Society of Echocardiography and the Society of Cardiovascular Anesthesiologists. 2011

 

GustavoRCF

Médico com residência em Cirurgia Geral, Terapia Intensiva e Título AMIB de Terapia Intensiva.

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