Você já pensou no plano de preservação de veias e cateteres do seu paciente?

Qual o cateter que seu paciente está usando?

Qual o tempo de terapia intravenosa necessário? O cateter vai garantir esse tratamento sem precisar ser trocado?

As medicações/diluições são compatíveis com o acesso venoso?

O paciente precisará fazer algum exame contrastado? Monitorar a PVC? Hemotransfundir? Nutrição parenteral? Droga vasoativa? Coletar sangue?

E o que seria esse “Plano de Preservação de Veias e Cateteres“?

São poucos os serviços que alcançaram essa maturidade em terapia intravenosa. A tecnologia avançou com produtos mais seguros, mais opções de cateteres, mais curativos, mais biocompatibilidade e tudo isso tem garantido menos infecção, menos flebite mecânica, maior tempo de uso do cateter entre outros. As técnicas de punção também se modernizaram, com novos equipamentos de visualização da rede venosa com ultrassonografia e luz infravermelha. 

Infelizmente a inércia nos mantém imóveis e receosos diante de todas essas mudanças. Não é incomum ouvir dos gestores, médicos ou enfermeiros: “No meu serviço sempre usamos esse cateter e não temos muita flebite!”, “Nossa taxa de pneumotórax é aceitável, só não faz pneumo quem não punciona!”, “Esse curativo é muito caro, não compensa!”

São avaliações superficiais e sem fundamentação em dados reais. Alguém avalia como as punções são feitas? Se os dispositivos estão bem indicados? Se a técnica de punção está correta? Se os dispositivos estão permanecendo o tempo previsto, ou se estão sendo trocados precocemente? E o custo das complicações?

Planejar uma estratégia para preservar as veias e os cateteres dos nossos pacientes é uma política institucional onde cada nível estratégico tem responsabilidades específicas. A alta gestão define as metas e aprova os recursos para alcançá-las. No nível tático, estão os gestores de equipes que definem rotinas, cobram as boas práticas e medem os resultados. No nível operacional estão os atores do processo de mudança. Médicos e enfermeiros da assistência têm o papel principal de pensar de forma individualizada sobre o que é o melhor para seu paciente, nos dois níveis acima a abordagem é coletiva e de longo prazo. 

Os times ou comissões de cateter têm o papel de padronizar rotinas, integrar equipes, manter atividades de educação e treinamentos de atualização profissional. Esses grupos podem ser executivos (fazem as punções) ou não, mas sempre devem ser estratégicos, monitorando indicadores de desempenho, definindo metas e discutindo de perto com as equipes, qual a melhor opção para o paciente.  

Algumas questões para pensar:

Quantas tentativas de punção periférica você aceitaria até se definir outro tipo de abordagem? Quantas vezes os pacientes são furados diariamente e quantos cateteres periféricos permanecem o tempo previsto de tratamento?

Já ouviu falar em Punção Venosa Periférica Guiada por USG? Sabia que a Anvisa recomenda o máximo de 2 tentativas de punção por profissional com o total de 4 tentativas na mesma técnica de punção? Após isso outro método deveria ser tentado (USG, infravermelho, PICC, CCIC).

Sabia que alguns pacientes têm um verdadeiro “deserto venoso” nos antebraços? E que qualquer tentativa de punção sem dispositivos de rastreamento venoso seria apenas um método de tortura? (Suas veias são boas ou você tem um “deserto venoso também”?)

Quantas vezes você aceitaria trocar de cateter periférico durante um tratamento em que as medicações injetáveis devem ser feitas por um período estimado de  10 a 14 dias? Todos os dias seria aceitável? Alguns pacientes passam por isso diariamente. São medicamentos incompatíveis com veias periféricas, soluções muito concentradas, cateteres inadequados, curativos mal feitos… (Você já avaliou se suas diluições de antibióticos, eletrólitos, anticonvulsivantes… são adequados para veias periféricas?)

Você conhece os cateteres periféricos de 14-24G, os centrais mono e duplo lúmen e os de diálise duplo e triplo lúmen, mas conhece os tipos de PICC do seu serviço? Sabe a diferença entre um valvulado e um power? Sabe as indicações de cada um desses? E o seu serviço, tem um Protocolo de Cateter que define os usos desses dispositivos?

Qual é a sua taxa aceitável de pneumotórax, de hemotórax,  de infecção de corrente sanguínea relacionada a cateter ou da troca precoce de cateter central por mal funcionamento/obstrução/exteriorização? Qual o custo disso? Como é a relação custo-benefício entre “Plano de Preservação de Veias e Cateteres” x “No meu serviço a taxa de pneumotórax é aceitável”?

Não podemos aceitar complicações evitáveis quando temos tecnologia, máquinas de rastreamento venoso, cateteres de última geração e curativos ideais. A incompetência no uso desses recursos é igual à aceitação tácita de flebites, pneumotórax, hemotórax, infecção, sofrimento desnecessário e mortes “acidentais”.

Se você quer mudar essa realidade, pense no seu “Plano de Preservação de Veias e Cateteres” caso contrário, permaneça inerte esperando sua vez de ser paciente e literalmente sentir na pele o que sua negligência produziu.

2 Comentários


  1. Bom dia Gustavo, texto excelente. Em um dos hospitais que trabalho temos um time de acessos vasculares. Estamos implantando o fluxograma de escolha de cateter conforme tempo de internaçao e uso de drogas, utilizamos US pra inserção de PICC e isso ajuda a equipe e o paciente. Temos obstrução de PICC e percebemos baixa adesão da equipe na lavagem adequada do cateter. No hospital que trabalhas como qual a rotina instituida e o indice de obstruçao de cateter?

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    1. Obrigado Tâmara, estamos no início do projeto ainda, a mudança de cultura das equipes é um trabalho muito lento. Nossa média de obstrução esse ano é de 3,8 e de resistência ao fluxo é de 3,7 piccs/mês.

      Ricardo Zimerman do RS, conseguiu convencer a farmácia a fracionar a ampola de alteplase na capela, pra usar nas obstruções de picc por lá, no meu serviço usamos apenas o flushing turbilhonado de 6/6h, mas a adesão ainda não é o esperado.

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